domingo, 29 de julho de 2012

No Escurinho do Cinema #2 - O Labirinto do Fauno

Título original: El Laberinto del Fauno
Direção: Guillermo del Toro (também roteirista)
Tempo de duração: 118 min.
Prêmios e indicações: não vou escrever tudo
Sinopse: Na década de 40, numa Espanha pós Guerra Civil, uma garotinha de 10 se muda com sua mãe para uma área rural ao norte do país. Sua mãe acaba de se casar com um coronel fascista, do qual espera um filho. A menina, então, passa a viver entre o mundo de violência do coronel e outro lugar fantástico, onde não existe dor.



É um labirinto. Esteve aí desde sempre, até mesmo antes do moinho. É melhor não ir para lá, pode se perder.

O filme se passa no cenário pós Guerra Civil Espanhola, na Espanha de Franco. Ofélia (Ivana Baquero) vive sua transgressão de infância para adolescência - o difícil período da pré-adolescência - e se muda com sua mãe, Carmen (Adriana Gil) para uma área rural ao norte do país, onde vive o mais novo marido de Carmen, o Capitão Vidal ( Sergi López), um general fascista que luta com os rebeldes nas montanhas.

O General Vidal é um personagem tão fascinante quanto a própria Ofélia. O homem parece viver uma crise de identidade. Não sabe se segue os princípios e a personalidade de seu pai, que deixou-lhe como lembrança um relógio parado na hora de sua morte para mostrar a Vidal como um verdadeiro homem deve morrer - o pai morreu durante a guerra antes mesmo que o General nascesse e dizem que, antes de sua morte, ele quebrou o relógio que usava para que seu filho soubesse a hora exata de sua morte - ou se descobre a sua própria personalidade. É um homem atraente fisicamente e calmo, o que pode ser enganoso, porque ele é extremamente cruel, capaz das maiores atrocidades para conseguir o que quer. E adivinhem o desejo de nosso querido General? Poder. Mas ele não quer apenas o simples poder; quer que as pessoas reconheçam esse poder, que esse poder seja demonstrável. É o claro estereótipo do autoritarismo, mas, sozinho, tem seus momentos de fraqueza e perturbação.

                  - Não entendo. Por que não me obedeceu?
                  - Porque obedecer por obedecer, sem pensar, é coisa que apenas homens como o senhor fazem, Capitão.



E temos também a Ofélia, nossa personagem principal. Como já foi dito, ela está passando pela pré-adolescência e vive sob a constante cobrança de sua mãe por amadurecimento, para que deixe os livros de contos de fadas. E então, surge o fauno (Doug Jones).
            
         Meu nome? Eu já tive tantos nomes. Nomes velhos que apenas o vento e as árvores podem pronunciar. Eu sou a montanha, a floresta e a terra. Eu sou o Fauno.

Quero deixar claro uma coisa pra quem ainda não assistiu ao filme: não se pode saber exatamente se o Mundo Subterrâneo e todas as criaturas são reais ou apenas fruto da imaginação de Ofélia. [SPOILER] No final do filme, há uma pista sobre isso: o General Vidal segue Ofélia até o labirinto, onde ela está conversando com o Fauno; mas o General não vê absolutamente nada além de Ofélia e o bebê. Isso, porém, pode significar também que o General não seria suficientemente "puro" para enxergar esse mundo [/SPOILER].

Ofélia, supostamente, seria detentora da alma da princesa do Mundo Subterrâneo, princesa essa que teria fugido há muito tempo para conhecer o mundo dos humanos. Mas a luz do Sol a cegou e ela se esqueceu quem era e de onde vinha. Sozinha e ao relento, acabou por morrer. Então, Ofélia é guiada por pequenas fadas até o labirinto, onde encontra o fauno, que lhe conta essa história, e diz que ela poderia voltar ao seu mundo, mas apenas se fosse capaz de cumprir três tarefas, provando que sua alma não tinha se perdido e que ela não havia se transformado numa mera mortal.

                   - Como vou saber que o que diz é verdade?
                   - Por que eu mentiria para você, eu, um pobre Fauno?



Ao longo do filme também dá entender que o Fauno não é apenas um fauno, mas o próprio Pã; mas isso não é importante. Saber se o mundo é uma fantasia ou não é um desafio durante todo o filme, principalmente quando [SPOILER] a saúde da mãe de Ofélia piora e o Fauno cia um tipo de feitiçaria para ajudá-la [/SPOILER]. Poderia ser também uma forma de a menina fugir do mundo belicoso e deprimente em que vive, criando um próprio mundo. No próprio filme, Ofélia diz a Mercedes, sua amiga, governanta da casa e informante dos rebeldes, que queria viver num mundo onde só houvesse felicidade. E aí entra Sigmund Freud (aos "leigos", pronuncia-se "fróid") " a distinção do vínculo com a realidade vai além; a satisfação é obtida através de ilusões".

Os dois mundos são completamente entrelaçados ao longo da trama, afetando a todos que estão a volta de Ofélia, principalmente sua mãe, que fica magoada com as atitudes de Ofélia em relação a tudo que acontece, com a infantilidade da filha e com a incapacidade de encarar o mundo real e difícil em que elas vivem.

Um aviso aos navegantes: o filme não é "nossa, super fantasia, girando em torno das grandes aventuras de Ofélia pra cumprir as três tarefas". Não. O maior foco do filme é o mundo real, a Espanha real após a guerra civil. A dificuldade dos rebeldes em conseguir manter sua sobrevivência e escapar dos militares, e, assim, a mesma dificuldade de seus familiares que tentam ajudar; vide Mercedes, que também é uma boa personagem, gentil e corajosa, que é irmã do (suposto) líder dos rebeldes nas montanhas. E também a crueldade dos fascistas com aqueles que iam contra os seus ideais. e principalmente o drama que Ofélia vive para fugir desse mundo. O filme é como uma sátira daquela época, rendendo uma boa análise socio-psicológica aos que tiverem bons olhos.

O final do filme é, de certa forma, surpreendente, porque não exatamente feliz. Bom, pelo menos na Espanha de Franco, não. Acho que é o momento onde mais nos confundimos com a veracidade do mundo de Ofélia. O narrador diz, então, que a princesa retornou ao seu reino e governou com paz e justiça por muitos séculos. 

"O Labirinto do Fauno" é um filme sobre guerra e violência, sim. Fala sobre a crueldade dos homens e como os que estão ao redor são afetados por essa crueldade. Mas também é um filme que fala sobre a importância do amor e da inocência.

Trailer legendado do filme (e um viva para os que leram essa chatice até aqui):

2 comentários:

  1. Eu tenho uma coisa com esse filme, porque nunca me lembro se o assisti ou não. Acho que eu ia assistir e, de repente, fiquei com medo e não quis. Medo? Haha, sim, esse Fauno é muito feio. A história deve ser muito interessante, é claro, e o trailer também é lindo, mas acho que não é o tipo de filme que me interessaria. Mas, se um dia eu não souber que filme assistir, espero me lembrar desse!
    Beijão!

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