sexta-feira, 18 de abril de 2014

Resenha: Depois da Meia-Noite

Título original: Four Past Midnight
Autor: Stephen King
Páginas: 667
Nota: 4/5
SinopseStephen King, consagrado unanimemente pela crítica mundial como o Mestre do Horror Moderno, reúne em Depois da meia-noite quatro histórias sobre pessoas que, habituadas à realidade cotidiana e palpável, encontram-se subitamente envolvidas por acontecimentos que desafiam a sanidade. São histórias que se referem não à meia-noite fisica - aquela que os velhos relógios anunciam com doze badaladas -, mas o sutil momento de transição entre nossa realidade e outra, bizarra, ilógica. Uma realidade formada pela substância da qual são feitos os pesadelos.



Meia-Noite e Um – Os Langoliers: no primeiro toque após a meia-noite, há um avião da American Pride a caminho de Los Angeles. O voo está cheio, e algumas pessoas dormem enquanto outras tentam se habituar à noite a uma altura considerável. Nesse ínterim, uma garotinha cega acorda e percebe que sua tia não está mais sentada ao seu lado. Sua tia sumiu. Todos sumiram. Ela grita e acorda mais nove passageiros, entre eles um piloto de avião, um agente secreto e um escritor de romances de mistério, além de uma garota recuperando-se do vício às drogas, um homem de negócios perturbado, um jovem prodígio no violino, uma mulher à beira da meia-idade em busca de aventura, um careca comilão e um homem de pouca sorte. Juntos, eles descobrem a terrível verdade sobre o que está acontecendo a eles e têm de se decidir a fazer alguns sacrifícios para voltarem a sua vida normal.
   Com um claro e incômodo toque de Deixados para Trás, esta história (a mais longa do livro) trás, acima de tudo, aquela coisa sobrenatural que beira o ridícula típica de alguns livros de Stephen King, mas ainda deixam o leitor deslumbrado. Neste caso, talvez pelo forte aspecto psicológico que essa sobrenaturalidade carrega em relação aos singulares personagens da história. Além disso, o caso é narrado de diversos POV, o que dá ao leitor uma imparcialidade importante, permitindo-o perceber aos poucos o verdadeiro vilão presente ali.
“- Agora nós sabemos, não é mesmo? [...] o que acontece ao hoje quando ele se torna amanhã, o que acontece ao presente quando ele se torna o passado. Uma espera – morta, vazia e deserta. Uma espera por eles. Uma espera pelos guardiães da eternidade, sempre correndo mais atrás, limpando a confusão e a bagunça, da maneira mais eficiente possível... comendo-a!”

   Meia-Noite e Dois – Janela Secreta, Secreto Jardim: Morton Rainey é escritor. Acabou de passar por um divórcio estranhamente rápido e pacífico, levando em conta que sua mulher o traiu. Ele não escreve mais e parece estar mergulhando numa densa depressão. Então, um dia, este homem, supostamente chamado John Shooter, bate em sua porta e o acusa de plágio. A acusação cai sobre uma história que Mort escreveu há alguns anos, um conto sinistro que narra a jornada de um homem que assassina sua mulher e sua lenta descida pelo poço da loucura na sua busca por se livrar as imagem da esposa. Porém, Morton tem certeza de que não plagiou ninguém. E quando diz isso a seu acusador, provoca apenas a sua fúria. E John Shooter se mostra um homem capaz de qualquer coisa para conseguir o que quer, ao mesmo tempo que cria uma estranha e negativa relação com Mort.
   Até as últimas páginas, a estória pode ser uma mistura de Angústia e Conte-me Seus Sonhos (Sidnei Sheldon). E então, desemboca para um delicioso talvez sobrenatural que deixa aquele “gostinho de quero mais”. Afinal, o que acontece a um escritor quando ele realmente vive sua história? O que acontece a um homem quando ele se perde o suficiente para apenas se encontrar em outro? Carregado por uma boa dose de terror psicológico e perscrutando alguns percalços da solidão, esse é um dos bons de Stephen King, trazendo o escritor longe de sua zona de conforto e nos trazendo um mistério deliciosamente previsível.
“Mort baixou o atiçador em um golpe sibilante, havendo apenas tempo suficiente para perceber que Shooter também esgrimia um atiçador, e para perceber que Shooter não usava seu chapéu preto de copa redonda, e para perceber que aquele não era Shooter em absoluto, para perceber que era ele, que o louco era ele. [...]”

   Meia-Noite e Três – O Policial da Biblioteca: Samuel Peebles mora numa cidade pequena e tem um negócio rentável na área de seguros. Nesta cidade, há um clube que traz convidados toda a semana para fazer um discurso ou apresentar um espetáculo. Porém, o showman da noite sofre um acidente e não pode mais se apresentar. O substituto da vez? Sam Peebles. Ele prepara um discurso, mas sua secretária sugere alguns livros que o ajudarão a incrementar o texto. Os livros são apenas encontrados na biblioteca da cidade, onde Sam nunca esteve. A bibliotecária é uma mulher velha e com ares de cruel, e a biblioteca infantil tem alguns pôsteres inapropriados; um deles representa até mesmo o Policial da Biblioteca, que pune aqueles que não devolvem seus livros no prazo. Como acontece com Sam. Mas, então, ele tem de enfrentar uma coisa muito maior e muito mais antiga do que o Policial da Biblioteca.
   Até que ponto pode chegar o medo? E até que ponto nós podemos enfrentá-lo? Esta é a questão aqui; quando guardamos nossos traumas tão profundamente que parecem mentiras quando são trazidos à tona. O “conto” tem personagens carismáticos, que conquistam nossa simpatia logo de cara, com temática interessante (e usa até o alcoolismo como analogia). Tem terror, sobrenatural, psicologia e romance. É quase energizante.
“Quem é o seu Policial da Biblioteca, Sam?”

   Meia-Noite e Quatro – O Cão da Polaroid: É o aniversário de quinze anos de Kevin Delevan, e ele ganhou o que mais queria: uma nova câmera Polaroid, modelo Sun 660. Mas, ela vem com um pequeno defeito: não importa para onde você aponte o visor, assim que pressionar o obturador e a foto for vomitada para fora e única coisa que vai ver é um cão preto em frente a uma cerca malcuidada. Talvez Pop Merrill, o vigarista da cidade, saiba o que há de errado. Mas, uma vez que o cão mostra estar em movimento e quase prestes a saltar sobre o fotógrafo (seja quem for), Kevin desiste da história e decide destruir a câmera. Ele destrói. Não a sua câmera, claro, porque o incrível Sr. Pop pretende lucrar um pouco com ela. E o cão pretende enlouquecê-lo um pouco, até que consiga chegar a Kevin.
   Este é direto e reto. Não sei quem é Kevin Delevan ou Reginald Merrill, e muito menos o Cão da Polaroid. Isso pode tornar a narrativa um pouco confusa e sem propósito às vezes, mas também traz uma familiaridade por se tratar desse lugar-comum que conhecemos e amamos. E o final é cheio de ação e daquele delicioso gostinho de quero-mais.
“[...] para Pop ele agora não parecia qualquer criatura que já houvesse existido neste mundo de Deus e, provavelmente, nem no inferno de Lúcifer.”



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